Meia-noite numa fronteira dos Balcãs, sem internet, sem ninguém no mundo sabendo onde eu estava, e um policial segurando meu documento do outro lado de uma janela fechada. Foi nessa noite que entendi, na prática, o que significa segurança em viagem, e por que ser mulher viajando sozinha não é igual a ser homem viajando sozinho.
Não gosto da ideia de viver com medo. Prefiro acreditar que, se algo tiver que acontecer, vai acontecer, não importa em qual lugar do mundo eu esteja. Mas isso nunca me impediu de pesquisar minimamente os riscos de cada lugar pra onde vou. E foi uma situação específica que mudou de vez a forma como eu penso nisso.
O ônibus da meia-noite
Eu sempre prefiro ônibus noturnos: rende mais a viagem e ainda economiza uma diária de hospedagem. Peguei um saindo de Budva, em Montenegro, rumo a Belgrado, na Sérvia, por volta das 20h, com chegada prevista pra 6h da manhã. Entrei, embalei o sono, e do nada acordei com as luzes acendendo e o ônibus parando: fronteira. Controle de imigração pra sair de Montenegro, todo mundo desce e passa a pé pelas casinhas de controle. Cinco minutos depois, mesma cena pra entrar na Sérvia.
Na minha vez, entreguei meu cartão de cidadão português. O policial pediu ID ou passaporte, na época eu ainda não tinha tirado o passaporte português, então expliquei que aquele documento era o que eu tinha. Ele fechou a janela, saiu da casinha e foi em direção a uma casa maior, levando meu documento com ele.
Olhei as horas: meia-noite e alguma coisa. Tinha comprado internet pra Sérvia, mas o eSIM não tinha ativado ao cruzar a fronteira. Eu estava sem comunicação nenhuma, e ninguém sabia que eu tinha pego aquele ônibus, muito menos que eu estava indo pra Belgrado.
"Com esse documento você não entra"
O policial voltou acompanhado de outro e foi direto: "Com esse documento você não entra na Sérvia." Eu sabia que estava certa, dentro da lei, mas não tinha internet pra provar nada ali, na hora. Respirei fundo, mantive a calma e perguntei: "Ok, pode me ajudar a voltar pra Budva então?" A resposta veio seca: "Você entra no próximo ônibus que passar pra lá, deve ser em umas 2h. Vai buscar suas malas."
Por fora eu tentava parecer tranquila. Por dentro, o medo tomava conta, e eu só repetia pra mim mesma que ia ficar tudo bem: pegaria o ônibus de volta, voltaria pro hostel, e dali resolveria o resto.
Foi então que o segundo policial voltou e disse: "Me dá de novo sua identificação." E ali eu gelei de verdade. Ele levou o documento pra dentro da casa maior de novo, e o que deve ter sido uns 15 minutos pareceu muito mais. Minha cabeça só girava em torno de uma pergunta: e se ele simplesmente não devolver, e disser que nunca pediu nada? Do nada, ele me chamou de volta pra cabine e disse que eu ia entrar na Sérvia, mas quase como um favor pessoal. Agradeci e voltei pro ônibus, que ainda não tinha saído, acho que existe um protocolo que eles seguem antes de deixar qualquer passageiro pra trás na fronteira.
Depois dessa noite, refleti muito sobre segurança em viagem, não só como mulher, mas de forma geral, porque isso poderia ter acontecido com qualquer pessoa.
Por que nômades precisam de mais cuidado
Viajar sozinha constantemente pede um pouco mais de atenção do que uma simples viagem de férias, e isso vale tanto pra mulheres quanto pra homens. Nós, nômades, estamos sempre atravessando fronteiras, nos locomovendo, fazendo passeios e aventuras novas, e quase nunca tem alguém por perto que realmente nos conhece.
Por isso criei um sistema de rede de segurança com meus amigos mais próximos:
- Uma pasta na nuvem compartilhada com eles, com passagens, hospedagens, seguro viagem, passaporte e vistos
- Um grupo no WhatsApp onde aviso sempre que me locomovo, e aviso de novo quando chego
- Minha localização em tempo real do Google, compartilhada com esse mesmo grupo
Recomendo fortemente montar esse sistema, mesmo numa viagem de férias comum. Pelo menos a pasta na nuvem com os detalhes e a localização compartilhada já fazem uma baita diferença.
E sendo mulher viajando sozinha...
Aí entra um cuidado a mais. A primeira regra é: nunca poste onde você está em tempo real. E se um desconhecido na rua começar a perguntar onde você está hospedada, seu nome, se você está sozinha, não dê informação verdadeira nenhuma. Invente outro nome, pense em outro hotel, diga que não lembra o nome do lugar. E você nunca está sozinha: seus amigos estão por perto dormindo, ou você só decidiu sair sozinha naquele dia específico.
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